
Um novo alerta demográfico veio da Itália. Segundo projeções divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística do país (Istat) no fim de agosto, a população italiana deve cair dos atuais 58,9 milhões para cerca de 55 milhões em 2050 e para 45,8 milhões até 2080. O país registrou 355 mil nascimentos no ano passado, o menor total desde a unificação da Itália, em 1861.
Hoje, cerca de um em cada quatro italianos tem 65 anos ou mais. Em 2050, a proporção deve chegar a um em cada três, enquanto a fatia da população em idade de trabalhar, entre 15 e 64 anos, cai de 63,4% para 55,3%. O efeito também será geográfico: o sul do país, mais pobre, deve perder a maior parte dos habitantes, com a população caindo de 19,7 milhões para 16,7 milhões em 2050, de acordo com o instituto.A presidente do Conselho, Giorgia Meloni, havia afirmado ao assumir o cargo em 2022 que aumentar a natalidade seria prioridade de governo, mas os esforços do governo produziram poucos resultados até agora.
O quadro italiano é parte de uma tendência que atinge todo o bloco europeu. Levantamento do Eurostat mostra que nasceram apenas 3,55 milhões de crianças na União Europeia em 2024, queda de 3,3% em relação ao ano anterior. A taxa de fecundidade recuou para 1,34 filho por mulher, o menor nível da série histórica do bloco, iniciada em 2001, e bem abaixo dos 2,1 necessários para manter uma população estável sem depender da imigração. No início de 2026, a UE somava 452 milhões de habitantes, 706 mil a mais que um ano antes, crescimento que segue dependendo do saldo migratório.
Diante do cenário, governos europeus têm ampliado o leque de incentivos para reduzir o custo de ter filhos. Na Itália, famílias com renda até 40 mil euros anuais continuam recebendo mil euros por criança nascida ou adotada. Já na Hungria, mães com dois filhos e menos de 40 anos deixaram de pagar imposto de renda sobre o trabalho desde janeiro, benefício que será estendido a todas as mães com dois filhos até 2029, enquanto famílias com três ou quatro filhos já têm isenções mais amplas. Na Grécia, uma nova tabela de imposto de renda em vigor desde janeiro reduz a alíquota conforme o número de filhos, até a isenção total a partir do quarto, além de um bônus por nascimento que varia de 2,4 mil a 3,5 mil euros. Na França, cada pai ou mãe passou a ter direito a até dois meses adicionais de licença remunerada após o nascimento ou adoção de um filho, desde julho deste ano.A licença é reembolsada em 70% do salário líquido no primeiro mês e 60% no segundo.
Apesar do volume de recursos, o efeito prático dessas políticas segue incerto. Anna Matysiak, professora da Universidade de Varsóvia que estuda dinâmica familiar e mercado de trabalho, avalia que é muito difícil reverter a queda da fecundidade, depois de anos observando políticas natalistas com resultado aquém do esperado na Europa central. Um estudo do instituto britânico Institute of Economic Affairs, publicado no fim do ano passado, chega a conclusão parecida: bônus e transferências em dinheiro têm impacto limitado sobre a fecundidade e não resolvem as causas de fundo da queda de nascimentos, que passam por moradia, creches e mercado de trabalho. Foi o que a Espanha observou depois de lançar, em 2007, uma transferência de 2,5 mil euros por bebê: os nascimentos subiram 6% nos nove meses seguintes, mas o efeito sobre o número final de filhos por mulher ao longo da vida, indicador mais relevante para a demografia, é menos claro.
A França ilustra o desafio. Apesar da nova licença parental, o país registrou em 2025 mais mortes do que nascimentos pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo o instituto de estatística Ined.
Os europeus também têm filhos mais tarde. A idade média das mulheres no nascimento do primeiro filho no bloco passou de 28,9 anos em 2014 para 29,9 anos em 2024, segundo o Eurostat; na Itália, a média já chega a 31,9 anos, a mais alta da União Europeia. Projeções da Comissão Europeia, braço executivo do bloco, indicam que em 2038 o número de europeus com mais de 65 anos deve superar o de pessoas entre 20 e 40 anos.




