
Em mais uma semana agitada na política europeia, marcada pela renúncia do premiê britânico Keir Starmer na segunda feira, a Lituânia também mudou de comando. A primeira-ministra Inga Ruginienė deixou o cargo na terça feira (24), após apenas dez meses, e deverá ser substituída por Mindaugas Sinkevičius, líder do Partido Social Democrata e terceiro chefe de governo do partido desde as eleições de outubro de 2024. Diferentemente do caso britânico, porém, a saída de Ruginienė tem menos a ver com colapso político do que com uma reorganização calculada da coligação governamental, cujo foco mais relevante para o resto da Europa é outro: a normalização das relações com a China.
“Na política nada é permanente e nós, enquanto políticos, temos de perceber que os nossos cargos e funções não são eternos”, disse Ruginienė aos jornalistas após a última reunião de Conselho de Ministros. “Este passo foi simplesmente adiado”, acrescentou, referindo se ao fato de que Sinkevičius já era apontado ao cargo desde o ano passado. A ex-premiê deverá voltar ao gabinete como ministra da Segurança Social, pasta que definiu como o lugar onde o seu “coração realmente está”.
O mandato breve de Ruginienė foi atravessado por turbulências. Incidentes de contrabando com balões, incursões de drones, a demissão dos ministros da Cultura e da Defesa e um orçamento militar recorde fixado em 5,38% do PIB marcaram os dez meses de governo. Viagens de familiares em deslocações oficiais à Itália e ao Vaticano, em infração à lei, e a gestão deficiente de informação sobre dados divulgados pelo Centro de Registos podem ter precipitado o desfecho. A própria Ruginienė havia assumido o cargo em agosto de 2025 após a saída de Gintautas Paluckas, derrubado por alegações de práticas financeiras pouco éticas envolvendo empréstimos, fundos da UE e ligações empresariais que abrangiam ele e familiares.
A remodelação tem também um componente de engenharia parlamentar. Os social-democratas afastaram os populistas da coligação e trouxeram de volta os democratas “Pela Lituânia”, que ficam com três pastas: Saúde, Agricultura e Energia. Agricultores e Verdes, com aliados, ficam com Economia e Justiça. O presidente Gitanas Nausėda deverá apresentar na quinta feira ao Seimas a proposta de nomeação de Sinkevičius, segundo a emissora pública LRT. O governo cessante permanece em funções até a formação do novo executivo.
O ponto de maior atenção, contudo, é o que muda na política externa. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Kęstutis Budrys, considerado mais próximo do presidente Nausėda do que dos social-democratas, enfrenta agora um equilíbrio delicado. Budrys foi incumbido de normalizar as relações com a China, um dos compromissos centrais do acordo da nova coligação. Nausėda não deixou margem para ambiguidade: “Se isso não acontecer, vamos olhar de forma diferente para a questão”, disse o presidente à LRT, referindo se ao futuro do ministro no cargo.
A Lituânia, contudo, não se move sozinha nesse tema. No Conselho Europeu da semana passada, o país alinhou se com França, Itália, Espanha e Países Baixos na defesa de um uso mais amplo de tarifas e outros instrumentos de defesa comercial para contrariar práticas desleais de Pequim. A posição sugere que a reaproximação bilateral não significa renunciar a instrumentos de proteção no plano multilateral, mas sim buscar uma atuação mais coordenada com os parceiros europeus.




