Noruega toma as rédeas do maior depósito de terras raras da Europa

23 de abril de 2026 3 minutos
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O governo norueguês anunciou que assumirá diretamente o planejamento do depósito de Fen, no sul do país, depois que uma revisão das estimativas de recursos quase dobrou o tamanho da jazida. A decisão transforma o que era até então um projeto de mineração privada num assunto de Estado, com implicações que vão muito além das fronteiras de Telemark, a região onde o depósito está localizado.

A jazida de Fen passou de 8,8 milhões de toneladas de óxidos de terras raras estimadas em 2024 para 15,9 milhões de toneladas em 2026, um salto de 81%, tornando-se oficialmente o maior depósito conhecido do continente europeu. O número, por si só, já seria suficiente para atrair atenção. O que tornou a movimentação de Oslo ainda mais reveladora foi o tom do primeiro-ministro Jonas Gahr Stoere ao justificá-la.

“O campo de Fen pode ser de grande importância para Telemark, para a Noruega e para a segurança do abastecimento e competitividade da Europa”, disse Stoere. “Para garantir o acesso futuro a minerais críticos, é importante aumentar a produção tanto na Noruega quanto em outros países com os quais cooperamos em termos de segurança.” A menção explícita à segurança, e não apenas à economia, não foi casual.

O pano de fundo é bem conhecido. A China domina a produção global de terras raras, respondendo por 95% da oferta mundial. Em abril de 2025, Pequim restringiu as exportações desses minerais em retaliação às tarifas americanas, e o efeito colateral na Europa foi imediato: linhas de montagem de veículos elétricos paralisadas, estoques no limite e um alerta que os governos europeus não puderam ignorar. Fen surge, nesse contexto, como parte da resposta estrutural que o continente tenta construir.

Cerca de 19% dos óxidos presentes no depósito são de neodímio e praseodímio, materiais essenciais para a fabricação de ímãs permanentes usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônica e aplicações de defesa. São exatamente os elementos que a China sabe que a Europa mais precisa.

A intervenção do Estado norueguês tem uma lógica política clara. O governo agiu a pedido das autoridades locais, citando o risco de conflitos sobre o uso da terra e a necessidade de equilibrar interesses nacionais concorrentes. Como aconteceu com parques eólicos terrestres na Noruega e com a expansão da mina de ferro em Kiruna, na Suécia vizinha, projetos de infraestrutura crítica no norte da Europa têm esbarrado sistematicamente em resistências ambientais e agrícolas que podem atrasar cronogramas por anos. Ao avocar o planejamento para si, Oslo sinaliza que não quer repetir esse ciclo.

A empresa responsável pelo desenvolvimento, Rare Earths Norway, espera iniciar a produção no final de 2031, com uma saída de 800 toneladas de NdPr até 2032, o equivalente a cerca de 5% da demanda da União Europeia. É uma fatia modesta diante da escala do problema, mas seria a primeira produção doméstica de terras raras em operação no continente. A Europa, por ora, não tem nenhuma mina sequer em funcionamento.

O que o caso de Fen ilustra, ao lado do depósito sueco Per Geijer, é uma mudança de mentalidade nos governos europeus. Mineração crítica deixou de ser uma questão regulatória a ser gerida por ministérios do meio ambiente e passou a ser tratada como política de segurança. A velocidade com que Oslo assumiu o controle do projeto sugere que a paciência com os trâmites habituais acabou.

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