Sugestões: “Guerra no Oriente Médio ameaça combinar inflação alta com crescimento fraco na Europa

27 de março de 2026 4 minutos
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O conflito no Oriente Médio impõe à União Europeia o risco mais concreto de crescimento fraco combinado com inflação alta desde a crise energética de 2022. O comissário europeu para a Economia, Valdis Dombrovskis, apresentou aos ministros das Finanças do bloco um cenário sombrio, segundo a Bloomberg: numa guerra curta, o crescimento da UE poderia recuar 0,4 ponto percentual em 2026. Caso o conflito se prolongue, o impacto sobe para 0,6 ponto percentual tanto em 2026 quanto em 2027, em comparação com as projeções de outono.

A advertência não é retórica. A Comissão Europeia havia projetado, em novembro, crescimento de 1,4% para a UE em 2026 e de 1,5% em 2027. Dombrovskis acrescentou que, em seu cenário mais adverso, a inflação poderia superar em até 1 ponto percentual as estimativas anteriores, que previam alta de preços de 2,1% para o bloco no ano.

O mecanismo de transmissão é conhecido: ataques iranianos a países do Golfo aliados ao bloqueio do Estreito de Ormuz perturbaram os mercados globais de energia, elevando o petróleo acima de US$ 100 por barril. Para a Europa, altamente dependente de gás importado, a equação é particularmente desfavorável. As projeções do BCE de março indicam que o petróleo e o gás devem atingir o pico de aproximadamente US$ 90 por barril e €50 por MWh no segundo trimestre de 2026, antes de recuar nos trimestres seguintes, mas apenas no cenário-base, o mais otimista.

BCE na corda bamba

Em 19 de março, o BCE optou por manter suas três taxas de juros inalteradas e revisou a projeção de crescimento da zona do euro para 0,9% em 2026, contra 1,3% e 1,4% nos dois anos seguintes. A inflação headline foi recalibrada para 2,6% em 2026, ante os menos de 2% projetados em dezembro. A revisão reflete, sobretudo, a pressão dos preços de energia sobre toda a cadeia produtiva.

O dilema para Christine Lagarde é evidente. Mais de um terço dos economistas ouvidos em pesquisa da Reuters passou a precificar pelo menos um aumento de juros do BCE em 2026, embora a maioria ainda espere manutenção das taxas. Os mercados chegam a apostar em cerca de 72 pontos-base de alta ao longo do ano, segundo dados da LSEG. Apertar a política monetária num momento de desaceleração econômica seria, por definição, piorar ainda mais o quadro. Não agir, porém, pode deixar as expectativas de inflação se desancorar.

Antes do conflito no Irã eclodir em fins de fevereiro, o Banco da Inglaterra era esperado para cortar sua taxa de referência na reunião de março. O choque nos preços de energia inverteu os planos: o Comitê de Política Monetária votou unanimemente pela manutenção da taxa em 3,75%, com o banco central alertando que a inflação britânica deve ficar entre 3% e 3,5% nos próximos trimestres.

As respostas em debate

Dombrovskis sinalizou que a Comissão Europeia está considerando exigir alíquotas menores sobre a tributação da eletricidade, para garantir que ela seja menos onerada do que os combustíveis fósseis. A liberação de reservas estratégicas de petróleo é outra opção em avaliação, com o objetivo de conter a pressão sobre os preços e afastar o risco de estagflação. O tema entrará na agenda do encontro conjunto de ministros de Finanças e Energia do G7 no dia 30 de março.

O problema estrutural vai além do choque imediato. Dombrovskis destacou que tanto o bloqueio do Estreito de Ormuz quanto os ataques iranianos à infraestrutura de produção de petróleo e gás nos países vizinhos podem ter impacto negativo significativo e duradouro nos preços globais de energia. Nesse cenário, o BCE alertou que qualquer resposta fiscal ao choque energético deve ser temporária, direcionada e calibrada, reforçando a urgência de reduzir a dependência europeia dos combustíveis fósseis.

A ironia geopolítica não escapou a Dombrovskis: preços mais altos de petróleo e gás ampliam as receitas do orçamento russo, num momento em que os EUA discutem aliviar sanções contra Moscou, decisão que o comissário classificou publicamente como um erro grave. A Europa enfrenta, portanto, não apenas um choque econômico, mas um ambiente onde os vetores geopolíticos apontam em direções opostas às suas metas de estabilidade.

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