
A partir de quinta-feira (3), o Brasil perde acesso ao mercado europeu de carnes, ovos e mel. Um detalhe da decisão chama atenção: dentro do próprio Mercosul, o Brasil ficou sozinho na lista de excluídos. Argentina, Uruguai e Paraguai continuam autorizados a exportar para o bloco europeu sob as mesmas regras sanitárias que tiraram o Brasil da lista.
A exclusão ocorreu poucos dias depois de entrar em vigor, em maio, o acordo comercial provisório entre a UE e o Mercosul, tratado que o Brasil ajudou a negociar por mais de duas décadas.
O motivo apresentado pela Comissão Europeia é técnico. A UE não proíbe remédios usados para tratar doenças em animais. O problema são os chamados promotores de crescimento, substâncias misturadas à ração para engordar o rebanho mais rápido. Um pecuarista de Barretos resumiu a lógica à AFP: “ajuda a digerir o pasto para que o boi ganhe mais peso”. É esse uso, considerado abusivo pela regulamentação europeia, que a Comissão diz não ter conseguido confirmar como banido nas fazendas brasileiras.
O Ministério da Agricultura publicou norma proibindo em todo o território o uso de aditivos como avoparcina, bacitracina e virginiamicina como melhoradores de desempenho. Para a Comissão Europeia, a medida veio tarde e sem garantias suficientes de fiscalização.
Na Europa, associações de produtores rurais comemoraram a decisão. O presidente da associação de agricultores irlandeses, Francie Gorman, chamou a suspensão de “um primeiro passo importante”. Para a Copa Cogeca, entidade que representa produtores de toda a UE, a preocupação central é o aumento dos volumes de importação em setores sensíveis como carne bovina, aves e açúcar.
A Comissão Europeia nega retaliação e atribui a decisão a uma exigência de coerência regulatória. Segundo o comissário europeu de Agricultura, Christophe Hansen, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos aplicados aos produtores do bloco.
Nem todo mundo na Europa recebeu a notícia da mesma forma. Processadores e importadores europeus anteciparam compras de frango e carne bovina brasileira nas últimas semanas para formar estoque antes do corte. Segundo relatório da RaboResearch, braço de pesquisa do Rabobank, o Brasil responde por cerca de 25% do abastecimento europeu de frango e de carne bovina, e fornecedores alternativos, como Argentina, Uruguai e Austrália no caso da carne bovina, dificilmente vão cobrir todo o volume que deixará de entrar, o que deve pressionar os preços dentro do bloco.
Em junho, o então ministro da Agricultura e hoje senador Carlos Fávaro afirmou que o impasse seria resolvido antes de setembro. A data chegou sem solução.
A Genial Investimentos avalia que o efeito agregado da suspensão é administrável e desigual entre as empresas, já que a Europa representa fatia pequena da receita das maiores processadoras. A exposição, porém, varia. A JBS produz boa parte da carne bovina que vende nos Estados Unidos, mercado não afetado pela decisão europeia, enquanto a MBRF, que reúne Marfrig e BRF, tem cerca de 2,5% da receita ligada ao mercado europeu, o equivalente a R$ 1,3 bilhão.
O veto europeu coincide com o esgotamento da cota chinesa de importação no mesmo período, o que deve redirecionar mais carne para o mercado interno e pressionar o preço da arroba do boi, hoje perto de R$ 350, para algo entre R$ 310 e R$ 315, segundo estimativas do setor.
Para aves e mel, a auditoria em curso deve terminar nesta sexta-feira, e um resultado positivo pode liberar as exportações em poucas semanas. Para a carne bovina, o processo tende a ser mais longo, porque depende da certificação de rebanhos inteiros ao longo de ciclos de produção que levam meses.




