
A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de ultradireita conhecido por suas posições nacionalistas e contrárias à imigração, ficou em primeiro lugar na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, ampliando a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz e provocando preocupação entre líderes europeus.
Localizado no leste do país, o estado tem cerca de 2,1 milhões de habitantes, integrou a antiga Alemanha Oriental e está entre as regiões mais pobres da Alemanha. A AfD recebeu 43,8% dos votos, mais que o dobro do resultado obtido em 2021. Já a União Democrata Cristã (CDU), partido de Merz e que governa o estado desde 2002, caiu para 17,2%, seu pior desempenho local desde a reunificação alemã. Foi também a maior votação da história da AfD em uma eleição estadual.
Apesar do resultado expressivo, o partido não garantiu o direito de governar. A AfD conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual, três a menos que o necessário para obter maioria absoluta. Segundo a BBC, seu candidato ao governo, Ulrich Siegmund, afirmou que não pretende liderar uma administração minoritária, embora a direção nacional da legenda considere essa possibilidade.
A formação do próximo governo dependerá agora de negociações difíceis. Com exceção da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), partido populista de esquerda que conquistou cinco cadeiras, todas as demais legendas rejeitam uma cooperação com a AfD. O partido também tenta atrair individualmente deputados conservadores da CDU. Caso não consiga apoio, uma nova eleição não está descartada.
A chegada da AfD ao governo teria peso histórico. Nenhum partido de ultradireita governa um estado alemão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Embora uma administração estadual não tenha poder para executar algumas das principais propostas nacionais da legenda, ela teria autoridade sobre áreas como segurança pública, educação e cultura.
Merz afirmou estar “profundamente chocado” e classificou o resultado como “sísmico”. O chanceler reconheceu que sua baixa popularidade contribuiu para a derrota, mas descartou renunciar ou cooperar com a AfD. A participação eleitoral chegou a 77,8%, índice elevado que reforçou a dimensão política do resultado.
O avanço da legenda não se limita à Saxônia-Anhalt. Nas eleições federais, a AfD passou de 10,4% dos votos em 2021 para 20,8% em 2025. Em 2024, também ficou em primeiro lugar na eleição estadual da Turíngia, mas não conseguiu formar o governo. Nos últimos anos, partidos de ultradireita e nacionalistas obtiveram resultados expressivos em países como Itália, Áustria, França e Portugal, impulsionados por temas como imigração, custo de vida, segurança e insatisfação com os governos tradicionais.
A repercussão ultrapassou as fronteiras alemãs. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, o premiê polonês Donald Tusk e os ministros Roland Lescure, da França, e Antonio Tajani, da Itália, manifestaram preocupação.
Embora a eleição não altere diretamente o governo federal, o resultado enfraquece Merz e impõe o maior teste até agora à política de isolamento da AfD. O chamado “muro de contenção”, adotado pelos partidos alemães desde o pós-guerra, impede acordos com a ultradireita e tem como referência histórica a chegada do Partido Nazista ao poder, em 1933, após uma aliança com forças conservadoras.
Os 43,8% conquistados pela AfD ampliaram o debate sobre a eficácia dessa estratégia. Para manter o partido fora do governo, legendas com posições muito diferentes, da centro-direita à esquerda, precisariam se unir. A dificuldade em formar essas coalizões e a percepção de parte do eleitorado de que seus votos estão sendo ignorados podem acabar fortalecendo ainda mais a AfD.
A definição sobre quem governará a Saxônia-Anhalt mostrará se a votação recorde ficará restrita às urnas ou abrirá caminho para o primeiro governo estadual liderado pela ultradireita na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial.




