
Amsterdã, conhecida mundialmente pela sua tolerância, acaba de decidir o que não pode mais aparecer nos seus outdoors. Desde 1.º de maio, a capital holandesa tornou-se a primeira capital do mundo a proibir legalmente anúncios de carne e de produtos ligados a combustíveis fósseis nos espaços públicos. Onde até semana passada apareciam nuggets de frango e ofertas de voos por 19 euros para Berlim, agora há cartazes do Rijksmuseum, o maior museu nacional da Holanda, e um concerto de piano.
A medida entrou em vigor após votação de 27 a 17 no conselho municipal, em janeiro. O alcance é amplo: outdoors, abrigos de bonde, estações de metrô e trem, ônibus ficaram vedados para anúncios de voos, cruzeiros, carros a gasolina e diesel e produtos cárneos. Lojas privadas, rádio e meios digitais permanecem fora do alcance da lei.
O peso econômico direto é, curiosamente, modesto. A carne representava apenas 0,1% dos gastos com publicidade externa na cidade, enquanto produtos ligados a combustíveis fósseis chegavam a cerca de 4%. Mas politicamente a proibição envia uma mensagem clara ao enquadrar a carne no mesmo campo semântico dos voos e dos carros a gasolina: não como escolha alimentar privada, mas como questão climática coletiva.
A Associação Holandesa de Carnes classificou a medida como “uma forma indesejável de influenciar o comportamento do consumidor”. A JCDecaux, maior operadora de publicidade externa do mundo, alertou o conselho municipal para as “consequências financeiras e legais de longo alcance” da medida. Após a aprovação, recusou-se a comentar.
Amsterdã não está sozinha. Haarlem foi em 2022 a primeira cidade do mundo a proibir anúncios de carne. Utrecht, Nijmegen, Delft e Leiden seguiram. Mais de 50 cidades europeias, de Edimburgo a Estocolmo, já restringiram publicidade de combustíveis fósseis. Na França, a restrição vale para todo o país.
A questão que ninguém sabe responder
Parado num ponto de bonde em Amsterdã, já não se vê um hambúrguer suculento nos painéis ao redor. Mas as mesmas ofertas continuam aparecendo no feed de quem olha para o celular enquanto espera o próximo bonde.
Não há ainda evidências diretas de que remover publicidade de carne dos espaços públicos altere padrões de consumo. Joreintje Mackenbach, epidemiologista do Hospital Universitário de Amsterdã, descreve a iniciativa como “um experimento natural fantástico de se observar” e cita um estudo segundo o qual a proibição de anúncios de junk food no metrô de Londres, em 2019, resultou em redução real nas compras desses produtos na cidade.




