
Os protestos de estudantes do ensino médio ocorrem num momento em que o governo francês propõe ao Parlamento um ajuste de cerca de 54 bilhões de euros no orçamento de 2027 e o país paga, nos títulos de dez anos, os juros mais altos desde 2002.
Num único dia de mobilização, o Ministério do Interior contou 1.027 liceus afetados, como são chamadas as escolas de ensino médio na França. É mais de um quarto das cerca de 3.700 do país. O movimento começou em setembro em uma escola de Créteil, na região de Paris. Outras escolas aderiram em poucos dias, vídeos circularam nas redes sociais e professores de algumas unidades fizeram greve. No fim do mês, a União Sindical Liceana, entidade estudantil, convocou bloqueios em todo o país, no mesmo dia de uma mobilização do funcionalismo público. Integrantes do partido de esquerda La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, declararam apoio ao movimento.
As reivindicações são concretas: substituição imediata de professores ausentes, mais profissionais nas escolas, como enfermeiros, turmas menos cheias, reforma de prédios descritos como degradados e horários mais leves. Os alunos também reclamam da pressão do Parcoursup, plataforma nacional pela qual se candidatam a cursos superiores.
A falta de professores é o ponto mais citado. O SNES-FSU, maior sindicato de professores do ensino secundário, ouviu 1.033 escolas, entre colégios e liceus (anos finais do fundamental e ensino médio), no início do ano letivo. Encontrou ao menos um professor faltando em 53% delas, com índice acima de 70% na região de Versalhes. O levantamento é do próprio sindicato, não um dado oficial, e mostra leve melhora sobre os 55% do ano passado. O ministro da Educação, Édouard Geffray, havia comemorado antes das aulas o avanço no recrutamento.
Pesquisadores franceses lembram, em análise no The Conversation, site de artigos acadêmicos, que mobilizações de alunos no início do ano letivo se repetem desde o fim dos anos 1970. Desta vez, o movimento alcançou dimensão nacional e coincidiu com outras fontes de insatisfação. O custo de vida pesa: o primeiro-ministro anunciou a liberação de parte das reservas estratégicas de diesel para baixar o preço nas bombas e tratou, no mesmo pronunciamento, de escolas, combustíveis, crise no campo e finanças públicas. O debate ocorre ainda em plena campanha para a eleição presidencial de 2027.
Houve violência. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, falou em cerca de 6.600 detenções. Segundo ele, 761 agentes das forças de segurança ficaram feridos, assim como 215 alunos e 89 profissionais da educação. De acordo com Geffray, 24 escolas foram incendiadas ou depredadas, e cerca de 30 mil alunos dessas unidades ficarão semanas sem aulas presenciais.
A resposta e as contas públicas
O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que lidera um governo sem maioria na Assembleia Nacional, apresentou cinco frentes de trabalho: substituição de professores, condições materiais das escolas, calendário escolar, transparência do Parcoursup e formas de expressão dos alunos. Lembrou que o orçamento da Educação será de 64 bilhões de euros em 2027, alta de 1,2 bilhão. Partidos de esquerda e de extrema-direita criticaram a falta de medidas imediatas. Geffray disse que apresentará nos próximos dias um plano de emergência para substituir professores ausentes.
A dívida pública chegou a 119% do PIB, cerca de 3,6 trilhões de euros (R$ 20 trilhões), segundo o Insee, instituto de estatísticas do país. Sem medidas de economia, o déficit de 2027 ficaria perto de 6,5% do PIB, disse Lecornu ao jornal Le Figaro. A meta do governo é de 5%. Segundo o premiê, a conta de juros deve subir 10 bilhões de euros no ano que vem, mais de oito vezes o aumento previsto para a Educação. Fora juros e Defesa, as verbas dos ministérios devem ficar praticamente congeladas, segundo o projeto de orçamento.
Nos mercados, o rendimento do título francês de dez anos chegou perto de 5% no início de outubro. A diferença em relação ao título alemão, referência de segurança na zona do euro, atingiu cerca de 1,6 ponto percentual, a maior em mais de uma década. Essa diferença, que mede o risco cobrado pelos investidores, quase dobrou neste ano. Para Andrew Kenningham, da consultoria britânica Capital Economics, os compradores de títulos temem que os deputados diluam as medidas fiscais do governo antes da eleição presidencial. O primeiro turno está marcado para abril de 2027, e o presidente, Emmanuel Macron, não pode concorrer de novo.
O Ministério da Educação diz que a adesão recuou nos últimos dias, mas entidades estudantis mantiveram o chamado para novos bloqueios e passeatas. Os deputados começam a debater o orçamento nas próximas semanas, com votação final prevista para meados de novembro, e a agência de classificação de risco Moody’s deve revisar a nota da França ainda em outubro.




